Se você já está há algum tempo batendo perna pelas ruas, provavelmente já jogou no Google a clássica pergunta: qual o melhor tênis de corrida?
Como corredor, eu sei que a vitrine das lojas e os reviews no Youtube podem ser bem confusos. São dezenas de marcas, espumas com nomes espaciais e placas de todos os materiais possíveis. Mas para entender o que realmente faz um tênis ser “o melhor” e como a tecnologia afeta o nosso ritmo, a forma mais fascinante é olhar para os pés de quem leva o corpo humano ao limite: os recordistas mundiais.
Durante mais de quatro décadas, o recorde da maratona não caiu apenas pelo talento absurdo dos atletas, mas também pela evolução da engenharia. Vamos fazer uma viagem no tempo e descobrir quanto do pace é perna, e quanto é tecnologia.
A engenharia encontra a biomecânica
Se voltarmos para a década de 1980, bater um recorde dependia quase 100% do talento, do pulmão e das pernas do maratonista. Os caras corriam com “flats” – aqueles tênis baixinhos, super secos, pesando cerca de 175 gramas, que não devolviam energia nenhuma.
Hoje, o jogo mudou. O rendimento de elite em 2026 é uma soma exata: Atleta + Biomecânica + Engenharia de Materiais. Sim, cada grama e cada milímetro de espuma somam no resultado final.
Antes das placas de carbono virarem febre, a regra para correr rápido era uma só: o tênis precisava ser o mais leve possível.
A era do EVA (2007 – 2011)
Em 2007, a lenda Haile Gebrselassie cravou 2:04:26 em Berlim usando o Adidas Adizero CS. Um tênis de apenas 185 gramas, com o tradicional amortecimento em EVA otimizado para reduzir o peso estrutural. No ano seguinte, na mesma prova, ele baixou a marca para 2:03:59 calçando o Adidas Adizero Adios (180 gramas), que trazia uma geometria refinada para melhorar a eficiência da passada. A dinastia dessa linha continuou em 2011, quando Patrick Makau marcou 2:03:38 usando o Adidas Adizero Adios 2 (200 gramas), que já apostava em um pouco mais de estabilidade para uma transição fluida.
A revolução do retorno de energia (2013 – 2017)
Foi aqui que o mercado começou a entender que apenas ser leve não era suficiente; o tênis precisava “empurrar” o atleta de volta.Em 2013, Wilson Kipsang (2:03:23) chocou o mundo em Berlim com o Adidas Adizero Adios Boost. O tênis ficou um pouco mais pesado (220 gramas), mas a introdução da famosa espuma Boost entregava um retorno de energia que o EVA comum não conseguia. No ano seguinte, Dennis Kimetto baixou a marca para 2:02:57 com a segunda versão do modelo (Boost 2, 230 gramas), provando que a tecnologia estava no caminho certo.

A virada de jogo: a placa de carbono entra na pista (2018 – 2023)
A grande revolução da economia de corrida, aquela que mudou o mercado para sempre, aconteceu em 2018. Eliud Kipchoge obliterou o recorde em Berlim (2:01:39) usando um protótipo do Nike Vaporfly Next%. Pesando míseros 184 gramas, ele unia uma placa de carbono rígida com a espuma ultraleve e responsiva ZoomX.
A partir daí, a guerra tecnológica escalou de forma impressionante:
- 2022 (Berlim): Kipchoge baixa seu próprio recorde para 2:01:09 com o Nike Alphafly Next% 2 (210g), agora equipado com placa de carbono completa, espuma ZoomX e bolhas de ar (Air Pods) no antepé.
- 2023 (Chicago): O saudoso Kelvin Kiptum destrói a marca com 2:00:35 calçando o Nike Alphafly Next% 3 (220g), que trazia um ZoomX ainda mais otimizado para uma transição perfeita.
A quebra da barreira das 2 horas (2026)
Tudo isso nos trouxe para a histórica Maratona de Londres de 2026. Rompendo a mítica barreira das 2 horas em uma prova oficial, Sabastian Sawe cruzou a linha em 1:59:30 (veja a ficha do atleta na World Athletics). O que estava nos pés dele? Uma obra-prima da engenharia: o Adidas Adizero Adios Pro Evo 3. (Falando em Londres 2026, veja também qual foi o Garmin surpreendente que o Sawe usou) Um tênis de inacreditáveis 97 gramas. Para conseguir esse peso sem perder a impulsão, a marca desenvolveu a espuma ultraleve Lightstrike Pro Evo e o sistema ENERGYRIM com carbono integrado.

Conclusão: qual é a resposta final para você?
Voltamos à pergunta que iniciou esse artigo: Qual o melhor tênis de corrida?
A história nos mostra que a tecnologia tem, sim, um peso gigantesco na performance. Mas repare que todos esses avanços astronômicos servem para maximizar o talento de atletas que treinam a vida inteira.
Se você é um corredor amador focado nos seus primeiros 5km, 10km ou em terminar a sua primeira meia maratona saudável, o melhor tênis do mundo não é o supertênis de 97 gramas do Sabastian Sawe. O melhor tênis para você é aquele que respeita a sua pisada, oferece o amortecimento necessário para evitar lesões e cabe no seu orçamento.
A placa de carbono e as espumas espaciais são incríveis para buscar aquele RP suado quando a sua mecânica de corrida já está afiada. Até lá, lembre-se da regra de ouro: o tênis não corre sozinho. Quem faz a mágica acontecer é o corredor que calça ele todos os dias de madrugada.
Bons treinos!
William Cardoso
Maratonista e criador do Drops de Corrida

