Você já correu uma prova com a distância errada? O drama do GPS contra a organização

Poucas coisas na vida de um corredor são tão frustrantes quanto o último quilômetro de uma prova mal aferida. Você treinou durante meses, abriu mão de finais de semana, ajustou o pace religiosamente e, no grande dia, a linha de chegada aparece muito antes (ou muito depois) do que deveria.

Quem acompanha as notícias do nosso esporte já viu polêmicas gigantes recentes envolvendo a Maratona de Niterói, Maratona de Sorocaba e provas do circuito Fila, onde a distância entregue foi consideravelmente diferente do que estava no regulamento. Esse é um assunto que gera indignação geral, e com razão.

Neste artigo, vamos conversar sobre como lidar com a frustração do GPS marcando errado, entender como as corridas deveriam ser medidas e falar sobre o desrespeito de quem vende um percurso e não o entrega.

O balde de água fria do percurso errado

Para quem não corre, pode parecer uma bobagem: Ah, mas foram só 500 metros de diferença, qual o problema?”. O problema é que o corredor trabalha com matemática pura.

Se a prova é mais curta, o seu RP é invalidado mental e oficialmente, pois você sabe que não correu a distância completa. Se a prova é mais longa, o estrago é psicológico. Chegar no quilômetro 41 de uma maratona, olhar para frente e já ver o pórtico de chegada é algo que destrói a expectativa de qualquer atleta, pois a prova será completada com uma distância menor do que deveria.

Essa dor não é só nossa. Em um tópico recente muito popular no fórum do Reddit, corredores do mundo inteiro relataram a frustração de lidar com provas amadoras e até algumas de grande porte que erraram feio na quilometragem. O sentimento é sempre o mesmo: você se sente roubado.

O drama do relógio: por que o GPS quase sempre marca a mais?

Antes de jogar a culpa inteira na organização, o corredor médio precisa entender uma regra de ouro: o seu Garmin ou Coros quase nunca vai bater exatamente com a placa de quilometragem da prova. E, na maioria das vezes, a culpa não é do evento, mas das tangentes.

No Brasil, as provas oficiais (homologadas pela CBAt – Confederação Brasileira de Atletismo) não são medidas de carro ou com o relógio do organizador. A aferição é feita por um profissional utilizando um aparelho chamado Contador Jones (Jones Counter), instalado no garfo de uma bicicleta.

O medidor oficial pedala fazendo o “trajeto ideal”, ou seja, a rota mais curta possível cortando todas as curvas de forma perfeita (as famosas tangentes). Como é praticamente impossível nós, no meio da multidão, fazermos esse traçado milimetricamente perfeito, o nosso GPS acaba registrando uma distância ligeiramente maior (geralmente entre 200 a 400 metros a mais em uma maratona).

Se quiser entender a fundo os detalhes técnicos de como isso funciona, recomendo a leitura deste artigo do portal Webrun sobre a medição oficial no Brasil.

Aparelho Jones Conter utilizado para aferição de percurso oficial.

A diferença entre errar a tangente e a organização falhar (minha experiência)

O problema real acontece quando a diferença não é de tangenciamento, mas de pura desorganização. Errar centenas de metros ou até quilômetros é falta de respeito com quem pagou caro pela inscrição.

Eu pessoalmente já passei por isso três vezes: uma prova de 5k, uma de 10k e a minha primeira meia-maratona.

O caso da meia foi, de longe, o pior de todos. Era a minha estreia na distância. Foram meses de ansiedade e treino. Quando cruzei a linha de chegada, levantei os braços e parei o relógio… ele marcava menos de 21 quilômetros.

A sensação de conquista escorreu pelo ralo. Para não perder o marco histórico da minha primeira meia-maratona, tive que, ignorar a festa da chegada e continuar correndo sozinho ao redor do evento até o meu GPS finalmente apitar os 21,095km. Ninguém merece estrear assim.

Como lidar com a frustração e não perder o foco

Nós não temos controle sobre a falta de capricho das organizadoras. O que podemos fazer é nos blindar.

  1. Abrace o seu esforço: Se o relógio marcou a menos na chegada, continue trotando e feche o seu ciclo. A sua medalha é o seu treino, a prova é só a consagração.
  2. Boicote com a carteira: Reclame nos canais oficiais e não volte a se inscrever em provas daquela organizadora. O mercado de corrida cresceu muito, e não há espaço para quem não entrega o básico.
  3. Mire no tempo de chip: Se o seu GPS der a mais (como 42.6km), aceite. O tempo que vale para índice é sempre o do tapete oficial.

Erros de percurso são um teste para o nosso psicológico. Da próxima vez que o seu relógio apitar fora do lugar, lembre-se de que o asfalto que você deixou para trás ninguém tira de você.

Nos vemos nas ruas (com o GPS carregado)!

William Cardoso
Maratonista e criador do Drops de Corrida